No início da jornada de todo profissional criativo, há uma busca quase mítica pelo “estilo pessoal”. É a nossa assinatura, a impressão digital que deixamos em cada projeto. Lembro-me claramente de passar noites em claro, refinando paletas de cores, escolhendo famílias tipográficas e desenvolvendo um traço que eu pudesse chamar de meu. Ter um estilo reconhecível é, sem dúvida, uma fonte de orgulho e, em muitos casos, um fator que atrai os primeiros clientes. Contudo, ao longo da minha trajetória no universo do design e do marketing digital, percebi uma verdade inconveniente, mas crucial: o apego excessivo a esse estilo pessoal pode se transformar de um trunfo em uma verdadeira âncora, limitando nosso crescimento, nossa relevância e, em última análise, nosso sucesso comercial.
A questão não é renegar a própria identidade, mas compreender quando ela serve ao projeto e quando o projeto deve ditar uma nova linguagem visual. O perigo reside na transição de ter um estilo para ser prisioneiro dele. Quando isso acontece, deixamos de ser solucionadores de problemas visuais para nos tornarmos meros reprodutores de uma fórmula, aplicando a mesma estética a desafios completamente distintos. É sobre essa linha tênue e perigosa que quero conversar hoje, explorando como a nossa identidade visual pode, paradoxalmente, fechar portas que nem sabíamos que estavam se abrindo.
O Estilo como Zona de Conforto: Eficiência vs. Estagnação
Desenvolver um estilo coeso traz uma sensação de segurança. Com o tempo, criamos um repertório de soluções que funcionam: aquela combinação de fontes que sempre parece elegante, aquele tratamento de imagem que confere um ar sofisticado, aquela estrutura de layout que organiza bem a informação. Isso otimiza nosso fluxo de trabalho, tornando-nos mais rápidos e eficientes. Para o cliente que nos procura especificamente por essa estética, é uma combinação perfeita.
O problema começa quando essa eficiência se converte em complacência. A zona de conforto é um lugar agradável, mas nada de novo floresce ali. Começamos a desviar de projetos que não se encaixam em nosso molde. Um designer com um estilo minimalista e austero pode sentir-se intimidado por um briefing que exige uma abordagem vibrante, maximalista e quase caótica para uma marca de festival de música jovem. A recusa ou a tentativa de forçar o minimalismo em um contexto que clama por energia resulta em dois cenários ruins: a perda de uma oportunidade de negócio ou a entrega de um trabalho que não se conecta com o público-alvo.
Ao longo da minha carreira, vi excelentes designers tornarem-se irrelevantes porque o mercado evoluiu, e eles não. O “flat design” que dominou o início da década de 2010, por exemplo, deu lugar a tendências como o glassmorfismo e o design 3D. O profissional que se recusou a aprender e a experimentar com novas linguagens visuais viu seu portfólio, antes moderno, tornar-se datado. A versatilidade não é trair seu estilo; é garantir sua longevidade profissional.
O Verdadeiro Propósito do Design: Servir à Mensagem, Não ao Designer
Este é, talvez, o ponto mais crítico. Como designers comerciais, web designers e estrategistas de marketing, nosso objetivo principal não é a autoexpressão artística. Nosso trabalho é resolver um problema de comunicação para um cliente. A identidade visual que criamos deve servir à marca, ao seu público e aos seus objetivos — não ao nosso ego ou ao nosso portfólio.
Imagine o seguinte cenário prático: uma startup de tecnologia financeira (fintech) precisa de um site. O público é formado por investidores conservadores, e o objetivo é transmitir segurança, credibilidade e solidez. Agora, imagine uma marca de sorvetes artesanais voltada para o público infantil, cujo objetivo é comunicar diversão, sabor e alegria.
O designer apegado a um estilo único — digamos, um brutalismo digital com tipografia pesada e monocromática — poderia até criar algo esteticamente interessante para a fintech, mas falharia miseravelmente com a marca de sorvetes. A solução visual seria inadequada, dissonante e ineficaz. Um profissional versátil, no entanto, mergulharia no universo de cada cliente. Para a fintech, ele exploraria uma paleta de azuis e cinzas, tipografia serifada que inspira confiança e um layout limpo e organizado. Para a sorveteria, ele brincaria com cores vibrantes, ilustrações lúdicas e fontes arredondadas.
O sucesso não está em aplicar o seu estilo ao briefing, mas em extrair do briefing o estilo mais eficaz. A nossa identidade como designers de elite não deveria estar na estética repetida, mas na nossa capacidade camaleônica de adotar e executar qualquer linguagem visual que o projeto exija com maestria.
Ampliando o Repertório: Como Escapar da Prisão Estilística
Reconhecer o perigo é o primeiro passo. O segundo, e mais importante, é agir ativamente para expandir seu vocabulário visual. Não se trata de abandonar o que você faz bem, mas de adicionar novas ferramentas ao seu arsenal criativo. Aqui estão algumas estratégias que adotei e que se provaram extremamente eficazes:
- Projetos de “Estudo de Estilo”: Dedique tempo para criar projetos fictícios com estéticas que estão fora da sua zona de conforto. Se você é minimalista, desafie-se a criar um pôster no estilo psicodélico dos anos 70. Se seu forte é o corporativo, tente desenvolver a identidade de uma banda de punk rock. Esse exercício flexibiliza seus músculos criativos.
- Desconstrução Analítica: Em vez de apenas salvar referências no Pinterest que se alinham ao seu gosto, busque trabalhos eficazes que você pessoalmente não gosta. Analise-os friamente: por que essa combinação de cores funciona para aquele público? Por que essa tipografia, embora “feia” para você, comunica perfeitamente a mensagem da marca? Essa análise crítica ensina mais do que a simples apreciação estética.
- Aprenda com Outras Disciplinas: O design não vive em uma bolha. Estude cinema para entender sobre composição e storytelling. Analise arquitetura para aprender sobre estrutura e espaço negativo. Observe a moda para compreender tendências de cores e texturas. Essas fontes externas enriquecem sua perspectiva e trazem novas ideias para a sua tela.
- Colaboração Intencional: Trabalhe com outros criativos que possuam estilos radicalmente diferentes do seu. A troca de ideias e processos é uma das formas mais rápidas de absorver novas técnicas e pontos de vista.
A verdadeira evolução acontece quando paramos de nos perguntar “Como eu faria isso no meu estilo?” e começamos a perguntar “Qual é a melhor forma de resolver este problema, independentemente do meu gosto pessoal?”.
Sua Identidade é Seu Processo, Não Sua Estética
Ao final, o que define um profissional de alto nível não é um conjunto de traços visuais repetidos, mas sim um processo robusto e adaptável. Sua verdadeira assinatura deveria ser a qualidade da sua pesquisa, a profundidade do seu diagnóstico estratégico, a sua empatia com o público-alvo e a sua capacidade impecável de execução, seja qual for o estilo demandado.
O seu “estilo pessoal” pode e deve evoluir. Ele pode se manifestar na maneira como você estrutura um projeto, na clareza com que você se comunica com o cliente, na sua atenção meticulosa aos detalhes, e não apenas em uma paleta de cores ou em uma fonte preferida.
Portanto, encorajo você a olhar para o seu portfólio não como uma galeria de arte pessoal, mas como um registro da sua capacidade de resolver problemas diversos. Abrace cada novo projeto como uma oportunidade de aprender uma nova língua visual. A versatilidade não dilui sua identidade; ela a fortalece, tornando-o um profissional mais completo, resiliente e, acima de tudo, indispensável em um mercado que está em constante transformação. O maior risco não é perder seu estilo, mas permitir que ele o impeça de encontrar novas e incríveis maneiras de se comunicar.








