Como profissional de design, com anos de imersão no universo da comunicação visual e do marketing digital, percebo uma mudança sutil, porém, definitiva, na forma como o nosso trabalho é percebido e avaliado. Por muito tempo, a habilidade de um designer foi medida pela sua competência em criar layouts deslumbrantes, escolher a paleta de cores perfeita e dominar ferramentas como o Photoshop ou o Figma. No entanto, em um mundo saturado de informações e onde a atenção do público é um ativo valioso, apenas a estética não é mais suficiente.
A verdade que a experiência me ensinou é que um designer de sucesso hoje precisa ser mais do que um exímio artista visual. Ele precisa ser um comunicador completo, e isso, invariavelmente, nos leva a uma questão que muitos evitam: o designer precisa escrever melhor? A minha resposta, categórica e baseada na prática, é um sim enfático.
O que me leva a essa conclusão não é um simples capricho ou uma nova tendência, mas uma observação de campo. A linha que separa o design da redação publicitária, ou copywriting, tem se tornado cada vez mais tênue. O designer que entende a importância do texto e sabe como ele interage com a imagem não apenas eleva a qualidade de seu trabalho, mas também se destaca em um mercado cada vez mais competitivo.
A Simbiose entre Imagem e Texto
Historicamente, o designer recebia o texto pronto e sua missão era dar a ele uma forma visualmente agradável. O texto era a “verdade” e a imagem, a “moldura”. Essa dinâmica, no entanto, não é mais eficaz. Em um anúncio digital, por exemplo, o texto não é apenas um complemento; ele é parte integrante do design. A fonte, o espaçamento, o tamanho da letra e o contraste com o fundo são elementos visuais tão importantes quanto a imagem em si.
A minha vivência mostra que um bom texto pode salvar um design mediano, enquanto um texto ruim pode arruinar o trabalho visual mais espetacular. Um exemplo clássico é o design de landing pages. Uma página pode ter o layout mais moderno e atraente do mundo, mas se o texto não for claro, conciso e persuasivo, o usuário simplesmente não converterá. A falta de uma boa hierarquia de informação textual, ou o uso de jargões técnicos em excesso, confunde o leitor e mina todo o esforço de design.
O designer que se aventura a aprimorar suas habilidades de escrita consegue participar de forma mais ativa no processo criativo. Em vez de ser apenas um executor, ele se torna um arquiteto da comunicação. Ele pode sugerir um título mais impactante, uma chamada para ação mais direta ou até mesmo reorganizar a estrutura do conteúdo para que a mensagem seja entregue de forma mais fluida e eficaz. Essa capacidade de pensar a comunicação como um todo é o que separa um bom designer de um designer extraordinário.
O Poder da Clareza e da Concisão
Em projetos de branding, a clareza é tudo. Já vi inúmeros casos em que a marca não consegue se comunicar de forma eficaz com seu público simplesmente porque a sua identidade visual e a sua voz de marca não estão em sintonia. E, muitas vezes, a voz de marca é construída com base em um texto.
Considere o slogan de uma empresa. O designer pode criar um logotipo impecável, mas se o slogan for fraco, genérico ou confuso, o impacto da marca será limitado. A responsabilidade de um designer vai além de criar a fonte para o slogan; ele deve ter a sensibilidade de entender se aquele texto, em sua essência, funciona. Ele precisa ser capaz de questionar, propor e, em alguns casos, até mesmo reescrever.
Essa habilidade de questionamento e reescrita não é um luxo, mas uma necessidade. Em um projeto recente, o cliente insistia em um título para um banner digital que era longo e excessivamente descritivo. Visivelmente, aquele texto não caberia no espaço sem comprometer a legibilidade. Ao invés de apenas diminuir a fonte ou apertar o espaçamento, a minha abordagem foi sugerir uma versão mais curta e impactante do título. A mudança não foi puramente visual; ela foi uma mudança de mensagem. O resultado final foi um anúncio mais limpo, mais legível e, o mais importante, mais eficaz em sua comunicação.
A Conexão com o SEO e o Marketing Digital
No mundo do marketing digital, a imagem e o texto se encontram de forma indissolúvel através do SEO (Search Engine Optimization). Um designer que compreende os fundamentos do SEO sabe que as palavras-chave não são apenas para o redator. Elas precisam ser incorporadas de forma natural em elementos visuais, como o texto alternativo (alt text) de imagens e nos títulos e descrições de infográficos.
A minha experiência me mostra que a otimização de uma imagem para o Google Imagens, por exemplo, é tão crucial quanto a otimização de um texto de blog para o Google. Um alt text bem escrito não só melhora a acessibilidade para pessoas com deficiência visual, mas também permite que a imagem seja encontrada por mecanismos de busca, aumentando o tráfego orgânico para o site. A responsabilidade de escrever esse texto, que muitas vezes é deixada para o designer, exige um entendimento da intenção de busca do usuário e da relevância da palavra-chave.
Além disso, a estrutura de um artigo de blog, que é visualmente organizada pelo designer, precisa seguir princípios de SEO. O uso de títulos H1, H2, H3 e a distribuição de parágrafos são elementos de design que impactam diretamente a leitura e o ranqueamento. O designer que entende essa lógica pode criar layouts que não apenas pareçam bonitos, mas que também sejam estrategicamente otimizados para o sucesso online.
O Futuro do Profissional de Design
A era do designer isolado, que apenas executa o que lhe é pedido, está chegando ao fim. O futuro pertence ao designer que se posiciona como um consultor de comunicação. Esse profissional não apenas cria peças visuais, mas também entende a mensagem que elas precisam transmitir, o público que elas precisam alcançar e o canal pelo qual serão veiculadas.
A escrita, nesse contexto, deixa de ser uma habilidade secundária e se torna uma ferramenta de pensamento e de diferenciação. Ao escrever, o designer organiza suas próprias ideias, articula seus argumentos para o cliente e, acima de tudo, se torna mais empático com o usuário final. Ele se coloca no lugar do leitor e se pergunta: “Será que essa mensagem é clara? Será que ela me convence?”
A aquisição dessa habilidade não exige um diploma em jornalismo. Começa com a prática diária: escrevendo e-mails mais claros para os clientes, criando descrições mais ricas para os portfólios e, por que não, escrevendo um artigo como este. O convite é para que designers abracem o texto como uma extensão de sua paleta de cores e de seu conjunto de ferramentas.
No fim das contas, a pergunta “Designers precisam escrever melhor?” se dissolve em uma nova perspectiva: o design, em sua essência, é uma forma de escrita. É a arte de contar uma história, de guiar o olhar e de persuadir. A diferença é que a caneta do designer não é apenas a palavra, mas a imagem que a acompanha, e a sinergia entre ambas é o que, verdadeiramente, define o sucesso da comunicação.








