Ao longo da minha jornada profissional, testemunhei inúmeras transformações no universo do design. Vi a ascensão do digital, a consolidação da experiência do usuário (UX) como pilar de negócios e, mais recentemente, a explosão de ferramentas que prometem “democratizar” a criação visual. Plataformas de templates, bancos de imagens de baixo custo e, agora, a inteligência artificial generativa, colocaram nas mãos de qualquer pessoa o poder de criar algo visualmente aceitável em questão de minutos. Este cenário, embora fascinante, levanta uma questão que ecoa em agências, estúdios e entre freelancers: o design está se tornando uma commodity?
A resposta curta seria um “não” categórico. Contudo, a realidade é muito mais matizada. O que percebo é a banalização de uma camada do design, a execução estética superficial. A facilidade de acesso a ferramentas que geram logotipos, layouts e ilustrações cria a perigosa ilusão de que o design é apenas isso: um produto final, um ativo digital desprovido de processo, estratégia e intelecto. E é exatamente nesse equívoco que reside a diferença entre o design como commodity e o design como um investimento estratégico fundamental.
A Ilusão da Ferramenta: O Martelo não Faz o Carpinteiro
O cerne da questão não está na existência das ferramentas, mas na forma como elas são percebidas e utilizadas. Um template de site, por exemplo, pode oferecer uma estrutura visualmente agradável. Contudo, ele não compreende o público-alvo do seu negócio. Não entende a jornada do cliente, os pontos de atrito na navegação ou os gatilhos psicológicos que incentivam uma conversão. Ele entrega um recipiente, mas o conteúdo estratégico, a arquitetura da informação e a usabilidade que realmente geram resultados são deixados de lado.
Vejo com frequência empreendedores que, na tentativa de otimizar custos, optam por um logotipo gerado por IA por uma fração do preço de um projeto de identidade visual. O resultado é, muitas vezes, uma imagem genérica, sem conceito, que não se conecta com a essência da marca e, pior, pode ser visualmente similar à de um concorrente que usou a mesma ferramenta.
O design profissional não é sobre manipular um software ou escolher uma paleta de cores. É um processo investigativo. Envolve imersão no negócio do cliente, análise de concorrência, entrevistas com stakeholders, mapeamento de personas e, só então, a tradução de todo esse diagnóstico em uma solução visual que resolve um problema específico. A ferramenta é o pincel, não a mão do artista; é o martelo, não a visão do arquiteto.
A Inteligência Artificial como Potencializadora, não como Substituta
A chegada da IA generativa adicionou uma nova e poderosa camada a essa discussão. Ferramentas como Midjourney, DALL-E e outras são capazes de criar imagens e layouts com um nível de refinamento impressionante. Negar seu impacto seria inútil. Como profissional, eu não as vejo como uma ameaça, mas como um catalisador de eficiência e um expansor de possibilidades criativas.
A IA é extraordinariamente eficaz na fase de ideação. Ela pode gerar dezenas de variações de um conceito em segundos, permitindo explorar caminhos visuais que, manualmente, levariam horas ou dias. Ela pode automatizar tarefas repetitivas, como a criação de padrões ou a adaptação de um layout para diferentes formatos. Em suma, ela pode liberar o designer do trabalho braçal para que ele se concentre no que realmente importa: a estratégia.
Onde a IA falha, e onde o valor humano se torna insubstituível, é no porquê.
- A IA não possui empatia: Ela não consegue se colocar no lugar do usuário final para entender suas frustrações e necessidades emocionais.
- A IA não tem contexto de negócio: Ela não compreende as metas de faturamento do cliente, o posicionamento de mercado desejado ou a cultura interna da empresa.
- A IA não constrói sistemas coerentes: Ela pode criar um ótimo ativo isolado, mas a construção de um sistema de design coeso, com diretrizes claras que garantam a consistência da marca em todos os pontos de contato, ainda é uma tarefa profundamente humana e estratégica.
- A IA não assume responsabilidade: Quem responde pela performance de um design? Quem analisa os dados, propõe melhorias e itera sobre a solução? A responsabilidade estratégica é, e sempre será, do profissional.
O designer do futuro (e do presente) é aquele que sabe fazer as perguntas certas à IA. É um curador, um diretor de arte que utiliza essa tecnologia como um assistente superdotado, e não como um oráculo.
O Valor Intangível: O que Realmente se Compra ao Contratar um Designer
Quando uma empresa investe em design profissional, ela não está apenas comprando um arquivo .JPG ou um código CSS. Ela está investindo em um processo intelectual que visa resolver problemas e gerar valor. O que está incluído nesse “pacote”?
- Clareza Estratégica: O designer atua como um consultor, ajudando a traduzir metas de negócio complexas em soluções de comunicação visual claras e eficazes. Muitas vezes, o processo de design ajuda o próprio cliente a entender melhor seu negócio e seu público.
- Diferenciação no Mercado: Em um oceano de templates e soluções genéricas, um design customizado e bem fundamentado é a forma mais poderosa de se destacar. Ele comunica profissionalismo, cuidado e a proposta de valor única da marca.
- Experiência do Usuário (UX): No ambiente digital, a experiência é tudo. Um bom design web não é apenas bonito; ele é intuitivo, acessível e otimizado para a conversão. Cada elemento é posicionado intencionalmente para guiar o usuário em uma jornada fluida, reduzindo a taxa de rejeição e aumentando o engajamento e as vendas.
- Consistência e Escalabilidade: Um projeto de identidade visual profissional entrega mais do que um logotipo. Ele entrega um sistema – um manual da marca (brand book) com tipografia, paleta de cores, regras de aplicação e tom de voz. Isso garante que a marca se mantenha coesa em todos os materiais futuros, do cartão de visitas ao aplicativo móvel, construindo reconhecimento e confiança ao longo do tempo.
Conclusão: O Design como Solução, não como Produto
A percepção do design como uma commodity surge de uma visão superficial que o limita à sua entrega final. Sim, a produção de peças visuais isoladas está mais acessível. Qualquer um pode “fazer” um design hoje. Mas poucos podem construir uma solução de design.
A verdadeira essência do nosso trabalho nunca esteve na habilidade de usar um software, mas na capacidade de pensar criticamente, de ter empatia pelo usuário, de entender o contexto do negócio e de conectar todos esses pontos em uma solução visual coesa e eficaz. As ferramentas mudam, evoluem e se tornam mais inteligentes. Elas podem e devem ser nossas aliadas para otimizar processos e explorar novas fronteiras criativas.
No entanto, enquanto houver problemas complexos de comunicação para resolver, marcas que precisam construir confiança e usuários que anseiam por experiências digitais claras e agradáveis, haverá um lugar insubstituível para o designer estratégico. O futuro não pertence a quem sabe dar os comandos mais básicos a uma IA, mas a quem sabe qual problema precisa ser resolvido antes mesmo de abrir qualquer ferramenta. O design, em sua forma mais pura e valiosa, nunca será uma prateleira de produtos. Ele sempre será um serviço de inteligência.








